| Situada na margem direita do rio Douro, a freguesia
de Urrós encontra-se a vinte quilómetros
da vila de Mogadouro.
O seu nome é de sentido topográfico,
pois a freguesia assenta numa pequena chã, entre
dois ribeiros, de vales pouco declivosos e pequenos.
Toda a freguesia tem as condições ideais
para ter servido com eficácia as populações
castrejas, necessariamente precisadas de segurança
e de protecção. Urreta Malhada e Cerco
são povoados abertos desse período, encontrados
há alguns anos nesta freguesia. Em Meirede, foram
achadas diversas moedas romanas e outros objectos, como
pedaços de cerâmica e machados, da mesma
época. Encontram-se actualmente, estes objectos,
no Museu Regional de Bragança.

Mas o maior vestígio de povoamento castrejo
em Urrós deve ser mesmo o Castelo de Oleiros.
Enconta-se num alto fronteiro a Espanha, que terá
sido inicialmente um castro lusitano. A romanização
não faltou, conforme se depreende dos diversos
achados: lápides, esculturas, cerâmica
vária (talvez daí o nome de Oleiros),
tudo da época romana.
As lendas sobre mouros e mouras, nestes lugares de Urrós,
abundam, como aliás em toda a região.
Uma delas diz que em Tomelar, numa fraga próxima
da ponte do mesmo nome, está gravada a pegada
do diabo, que ali bem desempenharia o papel de um mouro
amaldiçoado. Diz o povo que o tal mafarrico passou
por ali quando corria atrás de Nossa Senhora,
em fuga para o Egipto.
Nas Inquirições de 1258, aparece já
uma referência à freguesia, embora de forma
indirecta. Uma prova da sua existência anterior.
Todas as suas terras pertenciam então a vilãos-herdadores
e nada à coroa. Por estar junto à fronteira,
sofreu sempre as consequências das escaramuças
entre Portugal e Espanha.

A nível eclesiástico, Urrós foi
inicialmente da paróquia de Sendim até
constituir abadia independente. No entanto, o pároco
de Sendim apresentou sempre o abade desta freguesia,
que por volta do século XVIII tinha de rendimento
anual apenas o pé de altar, caso raro, senão
único, em todo o País.
Segundo o Cadastro da População do Reino,
ordenado em 1527 por D. João III, Urrós
pertencia ao termo de Algoso e tinha noventa fogos,
a que deveriam corresponder mais de duzentos moradores.
Um número importante para a época e que
se explica pelo estatuto que logo a seguir à
fundação da Nacionalidade adquiriu no
concelho em que se integrava. Apenas na sede concelhia
vivam por essa época mais pessoas.
Curioso documento sobre Urrós é o “Tombo
dos bens da comenda de Algoso”, de 1684. Nesse
documento, são demarcados com clareza os limites
da freguesia: “Comesa desdonde chamão ao
Baceial junto ao rio Douro e core rio abaixo ao Castello
de Oleiros e dahi vai rodeira asima ate as Penas de
Luis Sanches e dali vai ao Péguão de Gemonde
e corta por baixo da Cortinha do Marmeleiro que oje
de Manoel Pires deste luguar por sima da Ribeira donde
esta hum marquo com hua cruz e dahi vai as Penas da
Siara e core ao piquão e quabeço do Chelrequo
donde esta hum marquo entre dous penedos nos quais esta
uma cruz e dahi vai a Pena donde se fazem as cartas
e escrituras donde esta hua cruz e dali vai a Pena Figueira
e core a Pena do Vasso e dali corta ao Quabeço
do Quaguadeiro, e dahi toda a rodeira e estrada diguo
em te a estrada de Brinhosinho toda a estrada e rodeira
ate a estrada de Mourisquo”. Um curioso documento
e que na época deu aso a fortes polémicas
entre Urrós e as povoações circunvizinhas.

É uma freguesia que tem sofrido uma considerável
evolução nos últimos anos. Em meados
do século, a agricultura era ainda extremamente
rudimentar. No “Guia de Portugal”, Sant’Anna
Dionísio referia em relação a esta
realidade económica de Urrós: “Estamos
em pleno planalto mirandês, solene, desafogado
e ascético. Horizontes dilatadíssimos
mas indefinidos. Ao longe, para as bandas do norte,
desenha-se o discreto vulto azulado da serra de Nogueira.
(...)
Sucedem-se as folhas centeeiras, de pousio, entremeadas,
aqui e além, de pedregulhada. São terras
pobres ou depauperadas, trabalhadas ainda, em grande
escala, à maneira antiga, com o velho arado mourisco
puxado por dois burricos ou muares. Os tractores já
vão aparecendo, mas as seis ou oito sementes
que o solo lavrado e semeado dá, no final da
canseira, a custo os suporta.”
Uma freguesia muito especial, neste concelho de Mogadouro.
Para alguns, mais espanhola do que portuguesa. Por posição
e por cultura. Pinho Leal, no “Portugal Antigo
e Moderno”, chegava mesmo a dizer através
de um curioso discurso: “A gente d’esta
freguezia, pella sua vezinhança com a Galliza,
falla mais gallego que portuguez. Mas nem por isso detesta
menos os gallegos, do que os mais arraianos portuguezes”. |